A passagem de ônibus mais cara do Brasil me fez comprar um patinete elétrico
Tem uma pergunta que eu faço para mim mesma toda vez que vejo alguém reclamando do transporte público da sua cidade: você já pagou R$ 7,70 numa passagem de ônibus?
Porque se você mora em Florianópolis, essa é a sua realidade. Todo. Santo. Dia.
R$ 7,70 para entrar num ônibus lotado, sem ar-condicionado, que vai parar em cada semáforo da SC-401 enquanto você assiste, pela janela embaçada, o mesmo carro na sua frente há vinte minutos. R$ 15,40 por dia, ida e volta. Mais de R$ 300 por mês só para se locomover dentro de uma cidade que, ironicamente, é uma das mais bonitas do Brasil.
Eu sou designer freelancer, trabalho de casa, então não pego ônibus todo dia. Mas pegava. Para visitar clientes, para reuniões, para qualquer coisa que me tirasse do bairro. E cada vez que passava o cartão, eu pensava: isso aqui não está certo.
A conta que a prefeitura não faz, mas você deveria fazer
Florianópolis tem universidades federais, estaduais, particulares. Tem trabalhadores que vêm de São José, de Palhoça, de Biguaçu todos os dias para trabalhar na capital. Pessoas que dependem do ônibus não por opção, mas por necessidade. E que pagam, sem escolha, a tarifa mais cara do transporte coletivo urbano do país.
Eu não sou economista e não vou fingir que entendo todos os contratos de concessão e as planilhas que justificam esse número. Mas sei fazer uma conta simples: para um trabalhador que recebe um salário mínimo e pega dois ônibus por dia, o transporte já come quase 20% da renda bruta antes de pagar aluguel, comida ou qualquer outra coisa.
Isso não é gestão pública. É abandono disfarçado de tabela de preços.
A beleza da ilha, que é real e generosa, fica um pouco mais difícil de apreciar quando você está espremida num corredor de ônibus às 7h30 da manhã, suando, atrasada e R$ 7,70 mais pobre.
O dia que resolvi fazer as contas de verdade
Foi numa tarde de quarta-feira, depois de uma reunião com um cliente no Centro. Quarenta minutos de ônibus para fazer um trajeto que, no mapa, tem menos de 8 quilômetros. Cheguei atrasada, estressada, e com aquela sensação de que tinha perdido um pedaço do dia sem fazer nada.
Nessa mesma noite, por curiosidade (ou por desespero, não sei bem distinguir) usei a Calculadora de Custo do Melhor Patinete para simular quanto eu gastaria com transporte ao longo de um ano, comparando o ônibus com um patinete elétrico. Coloquei meus dados, minha frequência de uso, meu trajeto médio.
O resultado me deixou quieta por uns minutos.
A economia ao longo de 12 meses pagava boa parte do equipamento. E isso sem contar o que não tem preço: o tempo de volta, a previsibilidade do trajeto, a sensação de estar no controle de onde e quando eu chego.
Decidi comprar.
O que Floripa te dá quando você sai do ônibus
Aqui preciso ser justa, porque Florianópolis merece isso.
Quando você para de enxergar a cidade pela janela de um ônibus parado no trânsito e começa a atravessá-la de outro jeito, algo muda. A Lagoa da Conceição de manhã cedo tem uma luz que parece irreal. A orla da Beira-Mar Norte com vento sul é uma das experiências mais gratuitas e generosas que uma cidade pode oferecer. Os morros, que o transporte público insiste em ignorar, escondem vielas e mirantes que a maioria dos moradores nunca visitou.
Florianópolis é uma cidade linda que ainda não aprendeu a se respeitar como cidade. A infraestrutura de mobilidade é um desastre administrado com criatividade política há décadas. Mas a natureza, essa, não tem culpa da gestão.
E é exatamente ela: a natureza, a orla, o vento, a luz da tarde na Lagoa, que você começa a encontrar de verdade quando para de depender de um ônibus lotado para se mover.
Meu patinete não resolveu os problemas de Florianópolis. Mas resolveu os meus.
O que vem por aí
Nas próximas semanas conto mais sobre qual modelo eu escolhi, e por que uma designer freelancer que mora na Lagoa da Conceição comprou um dos patinetes mais pesados e potentes do mercado. Spoiler: Floripa tem morro. Muito morro.
E você, leitor que mora em Floripa ou em qualquer cidade com transporte público caro: já fez essa conta?
